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Uma plantação na periferia de Montevidéu (1).

Um passeio pelo Montevidéu Profundo.

O domingo amanheceu tão belo e brilhante quanto o dia anterior.
Havíamos combinado com Juan (nome fictício) de visitar sua casa nessa manhã.
Juan é amigo de longa data, ex-colega do ensino médio, que fora militante dos grupos clandestinos durante o sangrento período da Ditadura que, em Uruguai inicia em 1973 e se estende até 1983. Esteve preso – ele e a sua família – foi torturado, conseguiu ir para o exílio na França e voltou finalmente à pátria no final daqueles tempos obscuros.
Mora na periferia de Montevidéu, em uma área já rural, e divide a vida com uma bonita égua, três cachorros e alguns pés de maconha. Trabalha no Centro da Capital para onde se desloca diariamente em uma das duas motos que possui.

Como nosso hotel fica em Pocitos e sua casa nessa área rural de Montevidéu, calculamos que um táxi sairia muito caro. Decidimos ir de ônibus.
Perguntamos ao atendente do hotel quais linhas serviriam para nos aproximarmos daquela zona e ficamos sabendo que bem perto tínhamos uma, “que vai demorar bastante para passar” mas que os deixa bem perto.
Saímos.
Depois de esperar um bom tempo, e de algumas pesquisas entre o pessoal que aguardava nos pontos de ônibus, descobrimos outra linha que seria mais direta. Caminhamos até Bulevar España e retomamos a espera, sem a certeza de que essa linha circulava aos domingos.
O sistema de transporte coletivo de Montevidéu é muito deficitário. Embora existam linhas que cobrem praticamente todas as possibilidades, os veículos tem pouca frequência, dão muitas voltas e demoram demais para chegar ao destino. Mas considero que tivemos relativa sorte. O ônibus circulava aos domingos, não demorou tanto assim para aparecer e nos deixou realmente muito perto do sítio do Juan.

A viagem em si foi… uma viagem!
Transitamos pelo Montevidéu Profundo.
O trajeto, desde o ponto de partida em Punta Carretas, um dos bairros mais elegantes e tradicionais da Capital, percorre avenidas e ruas que atravessam todo o espectro social de Montevidéu: Pocitos, Buceo, Parque Batlle, La Blanqueada, Unión, Mercado Modelo, Perez Castellanos, Barrio Ituzaingó, Las Acacias, Hipódromo, Piedras Blancas, Manga, etc.
Alguns bairros, como más tarde nos informaria um motorista de táxi, são vedados à entrada da polícia, pois o tráfico, e a delinquência em geral, tomou conta. Passamos por ruas com belas residências, modernos edifícios, arremedos de arranha-céus nova-iorquinos, velhas mansões, grandes condomínios de inspiração soviética, simpáticas ruazinhas de bairros operários, antigos prédios de instituições estatais, casebres, descampados, terrenos baldios cobertos de lixo e todo o que é tipo de construção de nossas descuidadas urbes latino-americanas.

Após mais de uma hora dessa viagem pelo Montevidéu Profundo, aquele que os turistas ignoram quando se apaixonam pelo Montevidéu da Rambla, do Mercado del Puerto e das amplas avenidas e bulevares da parte cêntrica da capital, chegamos ao destino da linha, a partir do qual deveríamos ainda pegar um táxi que nos levasse até o sítio de Juan.

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